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ENTREVISTA: Sônia Travassos analisa legado de Monteiro Lobato para a literatura infantil

Atualizado: 15 de abr. de 2021


A partir deste sábado, Sônia ministra workshop online sobre o autor. Crédito: Divulgação

“Lobato traz uma literatura que dá muito mais espaço para o imaginário, para a fantasia. Ele também traz, como característica muito importante, a criança como protagonista”.


Prestes a ministrar o workshop online “Monteiro Lobato: por que e como ler Lobato com as crianças de hoje?” (INSCRIÇÕES AQUI), Sônia Travassos conversou com o Blog do Quindim sobre diferentes aspectos na obra do autor. Avaliou porque seus livros se tornaram clássicos da literatura infantil e seguem encantando gerações mesmo tanto tempo após sua morte, defendeu a necessidade de debater a presença de trechos racistas em alguns de seus livros e deu sugestões de como trabalhar o universo lobatiano em sala de aula.


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Doutora e mestre em Educação pela UFRJ, além de especialista em Literatura Infantil e Juvenil pela mesma instituição, Sônia é mediadora de leitura, escritora e contadora de histórias. Ministra regularmente cursos e palestras sobre bibliotecas escolares, literatura infantil e a obra de Lobato para professores de diversos estados do Brasil. Participa como professora ou palestrante de cursos de graduação e de pós-graduação na área da Educação e da Literatura e presta assessorias e consultorias para Secretarias Municipais de Educação.


Entre os anos 2000 e 2007, foi uma das redatoras da Revista Sítio do Picapau Amarelo e de outras publicações infantis da Editora Globo, além de ser consultora pedagógica do programa Sítio do Picapau Amarelo, da TV Globo, em 2007. É também a idealizadora da Casa de Histórias Sônia Travassos (RJ), espaço virtual para a divulgação da literatura infantil e formação continuada de professores. Confira a entrevista completa:


O escritor Monteiro Lobato: Crédito: Divulgação

BLOG DO QUINDIM: Mais de 70 anos após sua morte, a obra de Monteiro Lobato segue encantando gerações de leitores. Por que seus livros se tornaram clássicos da literatura infantil?


SÔNIA TRAVASSOS: Eles se tornaram clássicos primeiro porque foram muito inovadores. Na época em que Lobato começa a escrever, a literatura infantil que ele produz é bem diferente da literatura infantil brasileira que se produzia, muito mais voltada para a escola, para passar valores morais. Lobato traz uma literatura que dá muito mais espaço para o imaginário, para a fantasia. Ele também traz, como característica muito importante, a criança como protagonista. Naquele momento histórico e cultural, a criança tinha muito pouco espaço para expressão na sociedade. E o Lobato vai trazer uma criança potente, criativa, capaz de interagir com o mundo.


Lobato trouxe várias inovações. A questão da fantasia misturada com a realidade, a linguagem coloquial no universo da literatura infantil, o que não era muito comum na época. Ele foi se tornando clássico porque foi marcando gerações de leitores. Tem vários relatos de leitores que eram crianças nas décadas de 1920, 1930 e 1940 e que dizem o quanto a obra os mobilizava, o quanto foi importante para a construção da identidade deles, para se tornaram pessoas mais críticas.


Outro motivo é que a obra deixou marcas na própria cultura. Nós temos uma série de autores que começam a aparecer no final dos 1960 e 1970 que se dizem filhos de Lobato, no sentido de terem sido leitores e trazerem para suas obras características importantes que eles encontraram, na forma de tratar a criança com respeito, inteligência, na forma de trabalhar com a linguagem.


Essas são algumas das razões que fazem de Lobato um clássico da literatura infantil brasileiro. Os clássicos são aqueles livros que nunca deixam de marcar as pessoas. E quando as obras se tornam clássicas, muitas vezes são revisitadas por outras linguagens. A gente vê isso com a obra de Monteiro Lobato, que já virou filme, seriado de televisão, peça de teatro, história em quadrinhos, animação. É claro que a obra de Lobato tem suas questões ideológicas, marcas daquele momento histórico-cultural que ele viveu, mas continua encantando.


Personagem de Lobato é o mascote do Instituto Quindim

O que favorece a leitura da obra lobatiana no ambiente escolar?


Várias coisas favorecem. A obra de lobato tem um texto mais longo, se você comparar com as obras que saem hoje em dia para crianças de 6, 7, 8 anos. E as crianças de hoje tem um tempo de concentração menor para leitura. Então, o que ajuda? Compartilhar essa leitura. O professor lê em voz alta, conversando com as crianças sobre cada momento da história. Ou a criança lê o capítulo em casa e depois relê em sala de aula, em grupo, para ver como cada um entendeu aquele momento.


Outra coisa que contribui muito para a mediação na escola são as recriações das histórias. Reescrever cenas, interpretar personagens, desenhar os personagens. A partir do que as crianças leram, elas podem recriar muitas coisas que estão na obra, sejam personagens ou situações.


Como abordar e enfrentar a questão do racismo na mediação de leitura com as crianças de hoje?


A questão do racismo é importante de ser debatida. Sim, a gente encontra diversas passagens na obra do Lobato que são racistas, com termos racistas. São marcas histórico-culturais e também ideológicas daquele período. A gente também encontra uma cultura de servidão, digamos assim. A Tia Nastácia e o Tio Barnabé são os serviçais do sítio, eles ocupam esse lugar social.


Isso tem a ver com todo um contexto histórico do momento, levando em consideração que na literatura brasileira não existiam personagens negros. Naquela época, dificilmente você encontrava personagens negros na literatura. Lobato inova ao colocar personagens negros (nas histórias). Mas Tia Nastácia sofre, sim, preconceito racial. E também outros preconceitos, por ser mais ignorante no olhar das crianças, por conta de sua cor. Embora ela seja um personagem importante, que tem voz, que coloca seus saberes.

Obra de Lobato ganhou inúmeras adaptações, entre elas, o seriado de televisão. Crédito: TV Globo / Reprodução

Então essa é uma questão que precisa ser lida com as crianças, debatida, perguntar o que elas pensam desse tipo de postura ou de fala, pensar como que isso ainda acontece hoje. Trabalhar um clássico, antes de tudo, é a oportunidade de cruzar passado, presente e futuro. Como que essas coisas que aparecem num livro clássico, escrito há tantos anos, ainda permanece na nossa sociedade? É na mediação que você tem a oportunidade de discutir tudo isso.


Sônia com livro de Narizinho

Nos conte um pouco sobre a sua ligação com a obra de Lobato. Como foi que descobriu esse universo?


Fui criança no final dos anos 1960, início dos anos 1970. Como muitas famílias de classe média, eu tinha a coleção inteira do Monteiro Lobato em casa, mas não era uma boa leitora. Eu tinha uma irmã mais velha que lia muito, devorava um livro atrás do outro. E eu não dava conta de ler.


Até que um dia, lá pela 4ª série, aos 9 anos, eu tive que ler Caçadas de Pedrinho para a escola. Foi o primeiro livro que tive que dar conta de ler sozinha. Aquilo me marcou muito. Eu ia lendo aquele texto, que me envolvia completamente, e imaginava aquelas histórias todas. Esperava ansiosa pelas poucas ilustrações que tinham no livro para ver se realmente aquilo que eu tinha lido era o que estava acontecendo. Foi meu primeiro contato com a obra de Lobato.


Depois, só fui reencontrar Lobato na Universidade, quando fui fazer pós-graduação em Literatura Infantil e Juvenil e tive uma disciplina só sobre Monteiro Lobato, onde lemos toda a obra do autor. Ali, já adulta, nos anos 1990, fui me encantando de novo, entrando naquele mundo imaginário, vendo que era possível trabalhar aquelas histórias com as crianças na sala de aula.


Editora Biblioteca Azul / Reprodução

Para encerrar: qual sua história favorita de Lobato e por quê?


É um pouco difícil dizer. São muitas! Eu gosto de O Picapau Amarelo, um livro que tem uma grande intertextualidade, onde a cada capítulo aparecem personagens de universos diferentes. Ao mesmo tempo em que tem fantasia, também tem aventura, fazendo você entrar no universo desses outros personagens. Talvez seja um dos meus preferidos.


Mas também gosto muito de Reinações de Narizinho, porque são as histórias iniciais do Lobato, já com intertextualidade, fantasia, muitos personagens aparecendo pela primeira vez. É uma obra bem inaugural. Gosto ainda do Caçadas de Pedrinho, por conta da aventura. E também de O Saci, um livro em que aparecem vários personagens do nosso folclore.


Talvez esses sejam os meus preferidos, mas gosto da maioria deles: Reforma da Natureza, A Chave do Tamanho, Memórias da Emília. Gosto dos livros que tem mais fantasia, aventura, imaginação.


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