Instituto de Leitura Quindim celebra Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha


Neste domingo, 25 de julho, é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. A data vai ao encontro com a luta e resistência das mulheres negras que, diariamente, buscam igualdade de direitos na sociedade. Essa data foi instituída em 1992, durante o 1° Encontro de Mulheres Afro-latinas-americanas e Afro-caribenhas, que aconteceu na República Dominicana, na América Central. O evento surgiu para dar visibilidade à luta das mulheres negras contra a opressão de gênero, a exploração e o racismo.


No Brasil, de acordo com a Lei n° 12.987/2014, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, em 25 de julho se comemora o Dia de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Tereza foi um símbolo de resistência para seu povo ao ajudar comunidades negras e indígenas na luta pelo fim da escravidão no século XVIII.


Resistir, construir e lutar são atos constantes na vida das mulheres negras brasileiras. Desde os tempos antigos até os dias atuais, elas continuam a buscar por seus lugares. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base em dados de 2019, 56,10% da população brasileira se identifica como preta ou parda. Mesmo sendo maioria, a população preta e parda enfrenta inúmeras desigualdades, porém, quando se fala em mulheres negras, que, segundo Censo 2010, são mais de 5 milhões, essas desigualdades triplicam.


Para homenagear as mulheres que ajudam a manter o Brasil em pé em diversas áreas como a política, as artes, a ciência e tantas outras, o Instituto de Leitura Quindim traz alguns exemplos para conhecer a história e se inspirar em suas trajetórias.


Tereza de Benguela foi um símbolo de resistência na luta pelo fim da escravidão no século XVIII. Foto: Reprodução.

LITERATURA

Não poderíamos deixar de citar algumas das maiores escritoras negras presentes na literatura brasileira. Carolina Maria de Jesus, negra, catadora de papel e favelada, é autora de “O Quarto de Despejo”, livro que escreveu enquanto recolhia cadernos velhos. A obra virou best-seller e foi vendida em mais de 40 países e traduzida para 16 idiomas.


Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Elisa Lucinda, Kiusam de Oliveira, Sonia Rosa, Eliana Alves Cruz (que participou do Quintal da Língua Portuguesa), Eliana Debus e Jarid Arraes são outros exemplos que escolheram a escrita como uma das formas de contar suas histórias, com as suas visões e as suas vivências.


MÚSICA

A música, assim como a escrita, é um dos jeitos de se expressar as paixões, dores e felicidades da vida. A cultura brasileira é recheada de exemplos de cantoras negras que conquistaram e ainda conquistam seus espaços. Elza Soares é um dos maiores nomes da música popular brasileira. Sua história é formada por tropeços, dificuldades e adversidades, mas ela enfrentou tudo isso sem desistir.


O ícone do samba carioca Clementina de Jesus também precisa ser lembrada, assim como a potência que é Margareth Menezes e a talentosa Iza, que mesmo em pouco tempo já tem trilhado uma carreira de sucesso.


Da esquerda para a direita: Clementina de Jesus, Djamila Ribeiro e Carolina Maria de Jesus.

POLÍTICA

Mesmo que alguns digam que a política é um lugar em que apenas os homens têm vez, algumas mulheres pretas têm mudado esse rumo e feito história. Caxias do Sul conta com duas vereadoras negras, Denise Pessôa e Estela Balardin. Ambas têm lutado para que os espaços políticos tenham diversidade e que mais colegas ocupem as bancadas.


Não dá para esquecer de Benedita da Silva, atual deputada federal e ex-governadora do Rio de Janeiro. Uma lenda em defesa das mulheres e dos direitos da população mais carente, Benedita foi homenageada no projeto “Entre a Espada e a Rosa”, que apresentou debates sobre a semana em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, promovida pelo Instituto de Leitura Quindim em março de 2021. Erika Hilton, atual vereadora da cidade de São Paulo, é uma mulher preta e transexual, que hoje ocupa um espaço que há muito tempo era negado às suas companheiras. Era.


Vale lembrar de Antonieta de Barros, uma das primeiras mulheres a serem eleitas no Brasil. Eleita deputada estadual por Santa Catarina em 1934, Antonieta era a única negra.


E não dá para deixar de citar Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, assassinada em março de 2018, junto de seu motorista, Anderson Gomes. Marielle trilhava uma caminhada que estava apenas no começo, mas que foi interrompida de forma brutal. O mandante do crime ainda está impune. Aliás, quem mandou matar Marielle Franco?


A vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018.

RELIGIÃO e CIÊNCIA

Mãe Menininha de Gantois era descendente de escravos africanos, nascida em Salvador (BH), em 1894. Ainda na infância, foi escolhida para ser Iyalorixá no terreiro Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê, fundado por sua bisavó, em 1849. Foi a quarta das Iyálorixá do Terreiro do Gantois e a mais famosa do Brasil.


Mãe Menininha foi símbolo da luta pela aceitação do candomblé pela cultura dominante, além de abrir as portas do Gantois aos brancos e católicos. Costumava participar de missas e ainda convenceu bispos da Bahia a permitirem a entrada de mulheres trajadas com as roupas tradicionais das religiões de matriz africana nas igrejas católicas.


Hilária Batista de Almeida, mais conhecida como Tia Ciata, com 16 anos, mesmo tão jovem, já participava da fundação da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira, cidade do Recôncavo baiano. Filha de Oxum, sendo iniciada no santo na casa de Bambochê, da nação Ketu.

Aos 22 anos se mudou para o Rio de Janeiro onde continuou os preceitos do santo na casa de João Alabá, tornando-se Mãe-Pequena. Foi uma das responsáveis pela sedimentação do samba-carioca e tornou-se uma espécie de primeira dama das comunidades negras da Pequena África.

Assim como na religião, mulheres negras tiveram papel importante na ciência brasileira. Mônica Calazans, negra e enfermeira da cidade de São Paulo, em janeiro de 2021 entrou para a história. Mônica foi a primeira pessoa a ser vacinada contra a covid-19 no Brasil. Maria Odília Teixeira também deixou sua marca ao ser a primeira médica negra no país. Formada pela Faculdade de Medicina da Bahia (FAMEB), em 1909, Maria é lembrada até os dias atuais como uma das inspirações para tantas outras que sonham em ocupar esses espaços.


Da esquerda para a direita: Mãe Menininha de Gantois, Mônica Calazans e Tia Ciata.

ATUAÇÃO e JORNALISMO

É necessário confessar que ainda é baixo o número de atrizes negras que aparecem nas telenovelas e filmes brasileiros. Porém, as que estão lá, ocupam um lugar de destaque e com certeza abriram e continuam a abrir espaço para outras. Taís Araújo, Zezé Motta, Cris Viana e Ruth de Souza são alguns exemplos de artistas que estão marcando presença. No jornalismo não é muito diferente, porém, profissionais como Maria Júlia Coutinho, Zileide Silva e Dulcineia Novaes são nomes que representam o jornalismo em sua excelência.

ARTES PLÁSTICAS

Renata Felinto, Rosana Paulino e Maria Auxiliadora são artistas plásticas e visuais que, com seus trabalhos e projetos, revolucionaram a arte por expressarem suas ideias e visão do mundo de modo único. Maria Auxiliadora (1935-1974) foi uma pintora autodidata, ou seja, aprendeu e desenvolveu suas técnicas sozinha. Em suas obras, ela explorou temas da cultura brasileira como festas populares e paisagens.


Rosana trabalha com questões pouco debatidas pela sociedade atual, como a representatividade afro e os estereótipos em cima da mulher negra. Renata utiliza e trabalha as expressões de suas ideias, principalmente, com reflexões sobre o papel das negras na sociedade atual.

Todas essas e mais milhões de mulheres negras merecem nossas homenagens, principalmente em um país como o Brasil, em que o racismo estrutural está mais escancarado do que nunca.

O 25 de julho é um símbolo, um dia a mais de luta para elas e para todos nós que acreditamos em um país equânime. #VidasNegrasImportam.




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