ANABELLA LÓPEZ: “A ARTE CURA TANTO PARA QUEM CRIA QUANTO PARA QUEM LÊ”


Autora participa do bate-papo Quindim Entrevista desta semana. Crédito: Fernando Drusini / Divulgação

“Escrevo mais pelo desejo de contar a história do que para falar sobre certa temática. E no processo criativo a gente começa a acessar memórias. É terapêutico. Por isso acredito que a arte cura tanto para quem cria quanto para quem lê”.


A ilustradora e designer argentina Anabella López, 35 anos, é pontual ao defender a importância da arte e da literatura como alternativa para contornar traumas pessoais e manter a mente saudável. Com mais de 30 livros publicados e dezenas de exposições, a artista nascida em Buenos Aires mora há sete anos no Brasil, onde fundou e atualmente coordena a escola Usina de Imagem, em Recife, em parceria com a também ilustradora Rosinha.


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Seu livro Barbazul, que conquistou o Selo Distinção Cátedra 10, da Unesco, em 2017, e o Prêmio FNLIJ em Tradução/Adaptação Reconto, no ano seguinte, será destaque no curso online "Violência sexual na literatura: Onde anda o Barbazul?", ministrado pela antropóloga Carolina Parreiras e pela escritora e psicanalista Ninfa Parreiras. Em sete encontros via Zoom (para inscrições, clique aqui), obras literárias de diferentes gêneros e períodos históricos serão analisadas sob o olhar da antropologia e da psicanálise, com atenção especial para as cenas de hostilidade e opressão.


Convidada do Quindim Entrevista desta sexta-feira (02), Anabella, que também já faturou o Jabuti de Ilustração em Livro Infantil ou Juvenil por A força da palmeira (2015) , conversou com o Blog do Quindim, falando sobre os desafios em ilustrar uma obra tão conhecida como o Barbazul, os recursos gráficos utilizados para contar essa história e ainda sobre o espaço ocupado pelas mulheres na arte. Confira:


BLOG DO QUINDIM: Quais os desafios de ilustrar uma obra clássica tão conhecida como o Barbazul?

ANABELLA LÓPEZ: Pela minha experiência como autora, acho muito mais fácil trabalhar com clássicos do que com “histórias novas”. Isso se deve muito ao fato de que meu trabalho vai nessa direção de trazer o que é mais arcaico, de trabalhar a questão arquetipal e o inconsciente coletivo. Mesmo assim, sempre há o desafio de trazer uma proposta visual, narrativa e ideológica que seja diferente, original. Como a gente consegue ser inovador num texto que já foi trabalhado tantas vezes e por tantas pessoas? As histórias clássicas já foram trabalhadas na dança, na literatura infantil, no cinema, no teatro... Como que faz para ser original em um conto que já é de todos?

Ilustração de "Barbazul" (Aletria Editora, 2017). Crédito: Reprodução

A dificuldade aparece quando a gente foca demais nessa obsessão de ser original, tentando ser totalmente diferente das outras versões. O que facilita meu processo criativo é tentar, no começo de um trabalho, não ver o material visual de outros autores. Pelo menos não em literatura infantil ou em ilustrações. Tento me nutrir de referências que estejam bem longe da minha área, o que me permite fazer uma conexão original, com algum detalhe particular. Mesmo que uma história tenha sido contada milhões de vezes ao longo da história, ela sempre é contada de modo diferente. Essa é uma das questões mais sagradas que as histórias populares têm.


De que maneira os recursos gráficos narrativos que você escolheu contribuem para contar essa história?

É quase impossível descrever todos os recursos gráficos utilizados para criar uma narrativa! Muitos recursos são construídos conscientemente, mas outros vão aparecendo em camadas escondidas, porque têm a ver com as particularidades de cada autor. Na minha versão de Barbazul, a escolha da cor foi muito importante. Usei uma paleta bem simples: preto e branco, com pouca saturação, em oposição ao azul e ao vermelho, que foram escolhidas pensando na psicologia das cores. O azul se identifica muito com o masculino e o vermelho com o feminino. Usei essa polaridade entre as cores para representar simbolicamente o Barbazul e sua mulher como duas energias de oposição. Esse é um dos recursos visuais narrativos que guiam o leitor pela história.


Outra decisão não menos importante foi no projeto gráfico, em relação ao ritmo entre as páginas: há páginas simples, páginas duplas, páginas onde não tem texto... Foi uma sacada muito interessante que tive e que o editor respeitou: páginas com muito texto e outras sem nenhuma palavra, com espaço para reflexão do leitor, que precisa fazer uso do seu próprio repertório para entender o que está acontecendo.

Ilustração de "A força da palmeira" (Editora Mini Pallas, 2014). Crédito: Reprodução

O Brasil é o quinto país que mais comete feminicídio no mundo. Como foi trabalhar uma história que aborda essa temática?

Sinceramente, quando comecei a trabalhar a história, não foi pensando na questão do feminicídio, mas na violência doméstica contra a mulher, que acontece a portas fechadas e ninguém questiona, embora todo mundo saiba que acontece. Para mim foi até terapêutico, porque tive um entorno familiar muito violento, infelizmente. Eu sofri abuso sexual infantil. Era um contexto terrível, que claramente me marcou demais. Mesmo assim, dentro dessa loucura, tive um espaço de escape e de construção, que foi a escola. Por isso eu fico louca quando vejo o que está acontecendo com a educação pública!


O que me salvou foi a escola e, paralelamente, os professores e os livros. O livro sempre foi um lugar de escape desse mundo insano em que estava inserida. Era uma forma de continuar saudável mentalmente. E uma das minhas histórias favoritas era o Barbazul, porque claramente eu me identificava. Quando virei adulta, se tornou um grande desejo ilustrar essa história. Isso acontece muito nos meus livros. Escrevo mais pelo desejo de contar a história do que para falar sobre certa temática. E no processo criativo a gente começa a acessar memórias. É terapêutico. Por isso acredito que a arte cura tanto para quem cria quanto para quem lê.


Como você enxerga o espaço ocupado pelas mulheres na arte e, especialmente, na ilustração?

Os espaços conquistados pelas mulheres são cada vez maiores e mais consolidados. No âmbito da ilustração, não vejo muitas diferenças entre homens e mulheres, como acontece em outras áreas. Como professora, aí sim eu vejo diferenças: quando a gente analisa livros ou trabalhos, consigo ver uma imagem como mais masculina ou mais feminina. Acho que tem a ver com o posicionamento autoral: não é o mesmo ser homem ou ser mulher; isso marca como a gente trabalha visualmente, ideologicamente e narrativamente. Dependendo de quem conta a história, o livro vai ter um posicionamento diferente. E isso é bem rico e interessante, inclusive para alimentar a diversidade de vozes.

Ilustração do livro "Mais felizes do que sempre" (Editora Lago de Histórias, 2016). Crédito: Reprodução

Você nasceu na Argentina, mas vive no Brasil há alguns anos. O que mais te encanta neste país?

São duas coisas: o fato de ser tropical e de tudo ser muito exuberante, que é uma consequência. Tudo é demais, tem essa ligação com a natureza, você planta qualquer coisa e cresce. Isso é demais! Eu nasci em Buenos Aires, morei toda minha vida lá, fui criada numa cidade com tudo o que o urbano tem. Amo Buenos Aires, acho a cidade mais bonita do mundo, mas queria experimentar o que era morar num lugar diferente. Por isso, hoje, moro no Nordeste do Brasil. É litoral, um povoado pequeno, quase uma vila de pescadores. É quase o oposto de onde vivia antes. É como se, quando mudei para o Brasil, tivesse me tornado outra Anabella, uma mudança de pele.


Mas vejo que Brasil e Argentina não tem tantas diferenças quanto a mídia e a sociedade nos querem fazer pensar. Essa rivalidade é uma coisa muito articulada para separar uma América Latina unida. Quanto mais eu vivo no Brasil, mais percebo como somos parecidos em tudo: no jeito de levar a vida, nos valores, na comida, nas coisas boas e nas coisas ruins. Por último, uma coisa que me encanta é morar perto do mar. Ter o mar no meu cotidiano é algo que não consigo mais abrir mão. Eu surfo, mergulho... O mar tem uma participação muito importante no meu dia a dia.


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